Eu sou a Lenda
03/12/2011
“A força do vampiro é que ninguém quer acreditar nele”.
Obrigado, Dr. Van Helsing, pensou ele, deixando de lado seu exemplar de Drácula. Ficou sentado encarando a estante com um ar sombrio, escutando o segundo concerto para piano de Brahms, um uísque com limão e gelo na mão direita e um cigarro entre os lábios.
Era verdade. O livro era um amontoado de superstições e clichês de romance, mas aquela linha era verdadeira; ninguém havia acreditado neles, e como podiam combater algo em que sequer acreditavam?
Fora essa situação. Algo negro e noturnal havia saído rastejando da Idade Média.
Algo sem estrutura nem credulidade, algo que havia sido mantido confinado, sob todos os aspectos, às páginas da literatura imaginativa. Vampiros estavam ultrapassados, eram idílios de Summers ou melodramas de Stoker ou uma breve menção na Enciclopédia Britannica ou grão para o moinho do escritor de romances baratos ou matéria -prima para as fábricas de filmes B. Uma lenda de pouca importância transmitida de um século a outro.
Bom, era verdade.
Ele tomou um gole da bebida e fechou os olhos enquanto o líquido gelado escorria pela garganta e aquecia seu estômago. Verdade, pensou, mas ninguém jamais havia tido a oportunidade de saber. Ah, eles sabiam que era alguma coisa, mas não podia ser aquilo – não aquilo. Aquilo era imaginação, aquilo era superstição, não existia nada parecido com aquilo.
E, antes de a ciência alcançar a lenda, a lenda havia engolido a ciência e todo o resto.
Não havia encontrado nenhum pino de madeira naquele dia. Não havia verificado o gerador, não havia limpado os pedaços de espelho. Não havia jantado; perdera o apetite. Não era difícil. Perdia o apetite na maioria das vezes. Não conseguia fazer as coisas que havia feito a tarde toda e depois chegar a casa e comer com vontade. Nem mesmo depois de cinco meses.
Pensou nas onze – não, nas doze – crianças daquela tarde, e terminou o drinque em dois goles.
Piscou os olhos, e o quarto vacilou um pouco diante dele. Estás ficando bêbado, Velho, disse a si mesmo. E daí?, retrucou. Alguém tem mais direito a isso?
Jogou o livro do outro lado da sala. Sumam daqui, Van Helsing, Mina, Jonathan e Conde de olhos injetados e todos vocês! Todas invenções, todos extrapolações infantis em cima de um tema sinistro.
Uma risada pigarrenta escapou de sua garganta. Do lado de fora, Ben Cortman o chamou para sair. Já estou indo, Benny, pensou. Assim que vestir o meu smoking.
Teve um calafrio e cerrou os dentes. Já estou indo. Bom, por que não? Por que não sair? Era uma maneira segura de se livrar deles.
Ser um deles.
Riu da simplicidade daquela idéia, depois se forçou a levantar e andou mancando até o bar. Por que não? Sua mente continuou a divagar. Por que toda aquela complexidade quando uma porta escancarada e poucos passos poriam fim a tudo…
To be continued .
13 Comentários
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Achei o texto muito bem escrito, tanto que desperta a curiosidade do leitor.parabéns
Pior que Crepúsculo criou um estigma. Parece que tudo quanto é obra que tenha um vampiro será da mesma forma… '-'
Apesar de gostar de vampiros acho que os contos de hoje independente de quem sejam me fazem logo lembrar de Crepúsculo e por isso, acabo perdendo o interesse de continuar. =(Escreve muito bem.
Muito bom o conto, quero saber agora o que ele irá fazer.rs
Modinha ou não, vampiros são seres interessantes. Dracula estará sempre em minha mente como o maior de todos. Não só foi (ou ainda é?) um vampiro, mas um mago. Um gênio. E nunca vou me cansar de destruí-lo trocentas vezes no Castlevania XD .
Parabéns Felipe , pois eu nunca consegui passar da fase do vulção no Castelvania Nitendo 8 bits .Como eu não tinha grana pra comprar um video game ,eu não tinha muita grana pra jogar .
Detalhe :Isto foi me 1994 quando o 8 bits era 10 centavos a hora .Play station 70 centavos srsr
Conto interessanteComo a Suzi disse nota-se que há influencias.Curto mt histórias de vampiros, mas depois de virarem modinha eu tive que selecionar e mt bem pra eu não me decepcionar com o que eu ia ler.Estou aguardando a próxima parteBjus
acredita que se houver muito amor, as relações assim conseguem resistir à distância, eu que o diga!obrigado*peço desculpa pela minha ausência, a época de testes é sempre uma altura complicada !
Felipe,você lembra quando eu disse que os seus contos tinham influência? Senti a mesma coisa nesse texto do Abel^^
Posso dar a minha humilde opinião? Parece um conto experimental. Há várias referências a outras obras (música clássica?^^), há vampiros (estava aqui pensando se eles estão na moda..rs! Sem ofensas, Abel). E gostei da forma como o discurso se mistura à narrativa (agora esqueci como chamam isso em Teoria da Literatura). Vejamos o que acontecerá nos próximos capítulos…
Oh :OQuem será esse ser?Por um momento ele me pareceu um vampiro. Agora tá mais pra um caçador de vampiros. Só na continuação agora u.uadorei \o/