Loop

Uma luz viola o quarto. Olhos são coçados. A moça se levanta, espreguiçando-se. Lembranças coladas na parede. A história de um casal percorrendo-a. Abre a janela. Um dia ensolarado. Perfeito para um encontro com sua namorada. Vai ao trabalho. Quase perde a concentração de tanto ansiar ver a amada. Sentia como se não a visse há anos. Mal se despedia dela e já sentia saudade. Nada como o amor jovem. Pausa para o almoço. Nem começou a comer, ligou para a mulher. Dizia como estava ansiosa para vê-la. Uma notícia chata. A mulher estaria ocupada o dia todo. Precisa resolver alguns assuntos no serviço. Ficará até tarde. Deixar para um próximo o encontro. Desânimo. Diz que tudo bem e se despede. Decepção. Foca-se mais no trabalho. Estava tão desejosa em vê-la. Quem sabe na próxima? Não queria na próxima. Queria agora. Naquele momento. Ou, no mínimo, no horário combinado anteriormente. Era pedir demais amá-la quando quisesse? Largar o que estava fazendo, encontrá-la e beija-la como se nada mais importasse? Parece até papo de música melosa… E daí? O desejo não deixava de ser esse para aquela funcionária extremamente carente e insegura. Às vezes, não acreditava que namorava alguém. Principalmente uma mulher como aquela. Cheia de energia, agitada. Enquanto ela era quieta, conservada. Quase não falava. Porém, ansiosa e muito sensível. O que fazer?
Terminou o expediente e voltou pra casa. Jantou de cara emburrada. Começou a passar uma daquelas comédias românticas. Desligou a TV antes que ficasse chateada. Só de imaginar aqueles casaizinhos discutindo durante o filme todo, até que no final eles acabam percebendo que se amam e ficam juntos, a deixava enjoada. Mais do que isso, dava mais vontade de ver a namorada ocupada. Seria ainda tão tarde para a ver? Deitou-se na cama. Não era tão tarde ainda. Resolveu fazer uma loucura. Se arrumou e pegou o carro. Dirigiu até a casa da amante. Invadiria a casa, tiraria um pouco da roupa e deitaria na cama, esperando o retorno da heroína. Luzes acesas. Para o carro estranhando o estado do ambiente. Ela não ia chegar mais tarde? Acabou de chegar, talvez? Sai do veículo. Sente um movimento na casa. Aproxima-se da janela. A namorada deitada numa cama olhando pro teto. Estava tudo bem. Então aparece um homem apenas de cueca, com duas taças na mão e uma garrafa na outra. O que acontecia? Ela com um cara? ELA? Eles bebem e se beijam. Não existe mais suspeitas. Pensa em bater na porta violentamente. Com que intuito? Eles estão lá, se amassando. O fato não deixou de ocorrer. Não há razão para brigar. Amanhã ela conversaria com a mulher e terminaria tudo,certo? Quanto mais assistia a cena, mais desabava. Sentou no chão. Não segurou as lágrimas. Levanta e grita irritada. O som assusta o casal na cama. A traída entra no carro e acelera com tudo. Ninguém entende nada e continuam a pegação.
Chorando, tenta se concentrar na pista. Ignora as sinalizações. Por que ela fez isso? Por que um homem? E se fosse mulher, não melhoraria nada também. Enxuga as lágrimas. Um carro aparece num cruzamento. Ela freia. O carro não para. Impacto. O veículo capota. Bate numa mureta. Perna machucada. Ferida na cabeça. Tira o cinto e sai mancando. O outro motorista morreu. Sem o cinto, foi lançado contra o poste. A mulher chegou perto do corpo. Crânio aberto. Sentiu ânsia e se afastou. Na ansiedade de encontrar a traidora esqueceu o celular em casa. Continuou mancando. Mal enxergava. Tantos postes de luz e nenhum funcionava. Encontrou um telefone público na outra esquina. Foi lentamente até a rua. Iniciou a travessia. Ouviu um som de aceleração. Outro carro. O motorista discutia com alguém, sem olhar para frente. Parecia a namorada dele. Namorada… A moça não conseguiu correr por causa da perna ferida. O choque foi imediato. Ela acorda assustada. Não lembra o que aconteceu. Algum pesadelo? O quarto é atingido por uma luz. Coça os olhos. Se levanta e espreguiça. Fotos de um casal na parede… Vê um dia ensolarado ao abrir a janela. Um dia perfeito para um encontro com a namorada.
Imagem: Redheaded woman crying in vintage car by Tim McConville



Uau. Adorei. Bem escrito, sucinto, direto e impactante. Parabéns de verdade!
Muito bom, muito bom. Gostei do título, acabou caindo como uma luva pro conto xD – A minha curiosidade é se tudo foi apenas um pesadelo, ou se acabou sendo uma premonição …
Nenhum dos dois… A mulher já morreu, e está revivendo o dia da morte forevermente ^^
Ahhhh, eu achei que esse loop tinha sido apenas uma vez. Seria uma replay no caso então xD
Enfim, vendo agora parece tudo tão cruel D: – Quer dizer, passar todo esse tormento de ser traída, acabar morrendo e não poder descansar em paz, tendo que viver a mesma experiência para sempre.
Fico curioso em saber se existiria algum meio de quebrar esse loop. De qualquer forma, parabéns novamente, excelente conto =D
Kkkkk muito legal, impressionante realmente! Demorei para entender que eram um casal de lésbicas, e entendo que isso deve magoar ainda mais (ou não, como bem foi dito). Fico pensando no que ela sentiu. Talvez se fosse eu eu nem ligaria por ser atropelada. Ainda mais com um cara falando com a na,orada. É assim mesmo. A paixão atropela, o amor esmaga, e o resto é o resto. A imagem combinou muito, ocê fez o texto baseado na imagem? Enfim, está incrível, parabéns *-*
Na verdade não… Procurei a imagem bem depois de escrever o texto. Mas bateu bastante com a história, realmente ^^
A vontade de amar
nos rouba a atenção
da rotina diária!
Amar;
satifaz a alma.
Felipe, fiz o banner com aquela imagem que me enviou. Não sei se ficou boa. Outra, você me surpreendeu ao mesclar yuri e traição no mesmo conto. ISSO É INÉDITO NA HISTÓRIA DO MEU BLOG! Outra, o seu último conto (Morte 3×4) foi o primeiro que eu li (dos seus,claro) com um discurso direto livre (com a fala do personagem dentro do texto). O que demonstra que sua escrita está amadurecendo. Não vejo aqueles travessões que me davam a ideia de roteiro. Isso sem falar nas suas frases intercaladas,curtas. Eu adotei esse mesmo estilo (mais por influência indireta da Setsuna: http://houseofsilent.blogspot.com/),e o acho muito charmoso porque ele quebra com as formas fixas que estamos acostumados. Você mal começa a ler e a frase termina pra continuar na próxima. Sem dizer,óbvio,que aproxima a prosa do poema. (Por isso que é legal^^).
Ora, muito obrigado Suzi ^^ Estou aplicando certas variações nos meu contos para não ficarem tão cumpridos. Eu já escrevi uma história assim. Não sei se você se lembra daquele conto sobre a garota que foge de casa para matar pessoas com um cutelo… Enfim, não que eu irei deixar de postar contos naquele formato, mas gosto de variar um pouco. Fico feliz que gostem das histórias >_<